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  • Isabel Arruda

O boicote à auto estima

Sao muitos os fatores além de moradia, mercado de trabalho e escola para seus filhos que influenciam na adaptacao ao novo país. É claro que estas são as preocupações essenciais e, provavelmente, as mais importantes. Porém, quando tudo já está em seu devido lugar, aparecem as pequenas coisas. Aqueles fatores sutis que nem sequer são cogitados quando se planeja a mudança. Pequenas coisas que incomodam e tomam grandes proporções com o passar do tempo, principalmente quando ainda se está patinando na adaptação. Poderia escrever sobre vários destes fatores, porém hoje escolho concentrar apenas em um que atinge diretamente as mulheres: auto estima.


Escrevo esse texto de Vancouver, mas na verdade, poderia ser escrito de qualquer parte do mundo, pois sei que muitas mulheres espalhadas por aí se identificarão com o meu dilema. A estima pode nos afetar positivamente ou negativamente e está diretamente ligada com a nossa auto percepção e sentimentos mais reclusos. A baixa estima (ou a falta dela) pode derrubar e abalar a segurança e confiança em nós mesmas e em nossas escolhas.

Quando mudamos de país, as prioridades são tantas que nos deixamos um pouco de lado. Faz parte do processo! Geralmente a grana está mais curta, mais contada. A conta não fecha no final do mês, o dinheiro do novo trabalho não sustenta e ainda não cobre todos os gastos. É necessário ser cauteloso e economizar. Os itens supérfulos vão ficando para segundo plano. Academia, salão, manicure, são desnecessários perto de problemas de verdade.


Peço licença para escrever um texto pessoal - um desabafo mesmo - e compartilhar a minha história. Ainda não consegui um trabalho na minha área de atuação. Inúmeras entrevistas e enorme frustração. Como tempo é dinheiro e as contas são em dólar fiz o caminho mais inteligente e necessário para o momento, o caminho que a maioria dos expatriados faz: flexibilizar a mente e procurar um emprego em qualquer segmento – precisava de uma rotina de trabalho e de uns dólares na conta. Descer degraus faz parte do recomeço, certo?! Atualmente, trabaho em um café. Já passei por loja, estádio de futebol e agora um café.


Atrás daquele balcão, com meu cabelo constantemente preso, usando uniforme, sem unhas feitas, sem usar acessórios me sinto invisível. Me sinto diminuída perante aquelas mulheres incríveis que seguem desfilando em cima de seus saltos altos, com suas lindas e coloridas echarpes, maquiagens impecáveis, e Pumpkim Spice Latte em mãos. É uma briga interna, luto para recuperar minha auto estima e penso que tudo isso não passa de uma grande bobagem criada pela minha mente efraquecida, mas tem dias que ela me derruba. É dificil me livrar de alguns olhares de julgamentos ou pré conceitos – e isso porque estamos falando de Canadá que tem sua população extremamente educada e generosa.

Sinto falta de me vestir melhor, usar aquele salto alto quando acordar com vontade, aquele brinco lindo e grande, pintar a unha de vermelho fogo, fazer uma massagem modeladora, uma hidratação no cabelo, sei lá. Cuidar mais de mim não está em primeiro plano (preciso mudar isso já!). Sei que é só uma fase e que vai passar, sigo no foco principal do que me trouxe até aqui e tento não deixar isso tirar meu sono.


Se você está no processo de mudança e lendo esse texto, pode achar tudo uma grande besteira, exagero e que não tenho mais nada interessante para escrever. Mas a baixa estima é uma realidade que assombra muitas de nós. Resgatar a auto estima é prioridade! Se não estiver bem consigo mesma, tudo a seu redor estará em risco, inclusive a escolha de ter mudado de país.

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