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  • Isabel Arruda

O imigrante e a relação com o trabalho

O perfil do imigrante brasileiro vem mudando ao longo dos anos e, cada vez mais, profissionais qualificados estão deixando suas carreiras em busca de uma vida com mais qualidade e segurança. Paga-se um preço alto pela liberdade. Muitos não estão preparados para trocar carreiras em ascensão por empregos mais triviais, como garçons, caixas de supermercado, manobristas e por aí vai. Empregos desta natureza estão aqui aos montes esperando por você. A pergunta é: e você, está pronto para encará-los!? Pense bem nessa resposta enquanto estiver planejando a sua mudança de país. Pode ser que você consiga um emprego na sua área logo de cara, pode ser que não, portanto esteja preparado e bem resolvido mentalmente para encarar o desafio.


Morei na Austrália há alguns (muitos) anos atrás e trabalhei em diversos lugares: fui vendedora de cartão de crédito em shopping, faxineira em prédios comerciais, atendente em uma lanchonete de kebabs (o que me fez voltar com uns kilos extras), distribuía flyers para uma agência de viagens (em troca de descontos nas viagens) e ainda devo ter feito mais coisa, que não me recordo agora. Tive meus questionamentos e ansiedades, mas aprendi muito e fui feliz.


Aqui am Vancouver estou trabalhando como host no principal estádio da cidade (tipo o Maracanã) nos dias de jogos e eventos. Não me sinto menos capaz, diminuída ou infeliz por deixar uma carreira na principal emissora de televisão do Brasil para estar aqui hoje, e sim privilegiada em conhecer tanta gente bacana (e ainda assisto a todos os jogos). O time de hosts é composto por pessoas de tudo que é tipo: estudantes de 19 anos, imigrantes de várias nacionalidades, senhores de terceira idade (são muitos), canadenses que tem diversos outros empregos. A relação que os gringos tem com o trabalho é completamente diferente do que estamos acostumados. Não existe o subemprego, mas existe o trabalhar, ganhar dinheiro e sustentar a família de forma justa, digna e respeitosa.


Se me perguntarem se quero trabalhar com isso para o resto da vida, a resposta é não. Mas acho incrível viver isso nesse momento de transição. E, acredite em mim, esta experiência te faz crescer e mudar o olhar em relação à vida. Aprende-se a valorizar o trabalho, seja ele qual for e a ter um olhar cuidadoso e respeitoso sobre o outro. Você não sabe quais são as motivações de quem está ali. Talvez tenha sido escolha, talvez não. Não julgue, não destile preconceito ou superioridade.


Venho de uma carreira em que o ego, a aparência e o poder são muito presentes. Me incomodava demais, não me encaixava em nenhum dos quesitos acima. Dar um passo para trás é um excelente exercício de humildade para entender que a vida vai muito além de uma carreira. Eu já conheci muitos profissionais incríveis, mas que não davam bom dia para a moça da limpeza ou tratavam mal alguém com cargo inferior. Já não parecia mais incrível para mim.


Sempre olhei com certa estranheza os gringos que trabalhavam jobs temporários ou eventuais para ganhar algum dinheiro e viajar, escrever um livro, perseguir a carreira dos sonhos ou então tirar um ano sabático. Quando o dinheiro estivesse curto, trabalhavam mais um pouco no que aparecesse e assim a vida ia acontecendo. Me pareciam pessoas descompromissadas com o futuro ou então sem grandes ambições. E os benefícios de uma vida estável?! E o ticket refeição?! Demorei alguns anos para entender que é exatamente o oposto. O compromisso deles é com a vida e não deixa-la passar despercebida. Já condenei esta atitude e hoje, alguns anos depois, sou eu quem sigo este caminho.

Portanto, tenha a mente aberta e seja feliz! Descubra se isso funciona ou não para você. E não se preocupe com a opinião alheia. Não deixe que ninguém decida isso por você. Agarra tua vida e faz dela o que bem entender, seja cortando cebola ou sendo um executivo de uma grande multinacional.


O status social é uma armadilha perigosa para a felicidade e liberdade de viver.

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