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  • Isabel Arruda

Tudo passa


Hoje meu filho acordou diferente, como nas últimas duas manhãs.

Não queria saber da correria típica matinal pelo corredor.

Ou de empurrar a porta com pressa para acordar a irmã.

Tampouco se interessou pelos brinquedos espalhados no chão da sala.


Queria colo. Muito colo.

Entrelaçava suas pequenas perninhas na minha cintura.

Seu choro queria me dizer algo que não estava compreendendo.

Frustração coletiva.


Seria o dente rasgando a gengiva ao nascer?!

Seria aquele episódio que o deixei chorando no berço uma mensagem de abandono?

Seria o extremo cansaço dos dias anteriores?


Me sentindo sobrecarregada, lembrei.

Lembrei que tudo passa.


As noites mal dormidas passam, assim como a exaustão da privação do sono.

O choro agudo e intenso.

O medo daquele ser frágil se machucar.

Tudo isso passa.


A dependência exclusiva passa.

As horas ninando e cantando a mesma música em um looping infinito.

Os passeios interrompidos.

Tudo isso passa.


Mas também passa o tempo.

Os dias, meses e anos. Assim como em um piscar de olhos.

E quando nos damos conta, cresceram e talvez já não queiram mais tanto nosso chamego ou colo.

Já não correm chorando para nós em busca de abrigo.

Já não esperam mais que beijos mágicos curem feridas abertas.

E já acham os amigos mais interessantes do que os pais.


E nessa pressa de querer que o difícil passe logo, o gostoso passa junto.

O único. Aquele micro-momento que gera uma conexão infinita.

Os momento que não mais voltam.

Tudo é experiência. Tudo é vida.


E assim respiro fundo e me acalmo.

E acolho. A ele e a mim.

E olho no fundo nos olhos desse bebê com tanto amor e entendo que tudo passa.

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